O piercing já não é mais novidade pra ninguém, mesmo assim continua na moda e em nada lembra a sua antiga fama de rebeldia. Hoje, o penduricalho se faz presente no visual de alternativos, moderninhos e até de patricinhas. Os modelitos das jóias e os locais de fixação, estes sim, continuam inovando – tem gente que elege as regiões mais remotas e improváveis da anatomia humana para colocar a tal peça. Bom, modismos e gostos à parte, o adereço, além de alegórico, representa também um risco para a saúde. Então, antes de aderir ao piercing, é bom se certificar de certos cuidados para que ele cumpra apenas a sua função, seja ela transgredir ou embelezar.
Na língua, lábios, supercílios e até nas bochechas, eles não significam mais um diferencial. Estão aí para enfeitar o visual de muita gente que quer ser boa e, claro, na moda. No entanto, o aumento no número de adeptos e a falta de cuidados com a colocação do badulaque preocupam profissionais de saúde. As complicações que a peça pode causar, só na boca, vão desde infecções, dentes quebrados ou arranhados e tecidos rompidos, a reações alérgicas severas e perda de sensibilidade na língua. "A boca contém em torno de quinhentos tipos de bactérias. Ao colocar um piercing, você modifica muito a sua flora bacteriana, causando várias infecções", diz o dentista Luís Carlos Sá. Achou terrível? Mas o pior ainda está por vir: "É grande a probabilidade do paciente ter traumas mecânicos na gengiva ou mesmo nos dentes. Há casos em que a mastigação, a dicção e o alinhamento dos dentes também ficam comprometidos", alerta Luís Carlos.
Em outras regiões do corpo o adereço moderninho também faz das suas. A estudante Ana Carolina Pires, 15 anos, teve uma infecção depois de ter colocado um piercing na cartilagem da orelha em uma farmácia. "Eu queria colocar há muito tempo, só que meus pais não deixavam. Então, resolvi fazer na farmácia, pois minha mãe aceitaria com mais facilidade. A inflamação aconteceu de repente, dormi bem e acordei com a orelha muito inchada. Ele entrou todo na minha orelha, tentei tirar, puxar, mas não teve jeito. Foi a dermatologista quem conseguiu puxar e tratar a infecção", diz ela. Ana Carolina voltou à farmácia para reclamar e lá foi informada de que eles não se responsabilizavam por nada. Já a adolescente Ana Beatriz não teve a mesma sorte. Precisou tirar um pedaço de sua orelha. "Quando fui ao médico, minha orelha já não tinha mais jeito. Tive que recorrer a um cirurgião. Mas a culpa foi minha, eu não tratei direito", lamenta.
Portanto, antes de se arriscar no modismo, é muito importante verificar alguns detalhes do procedimento, como saber se o local escolhido possui licença da Vigilância Sanitária. Além de estar de acordo com a lei, o estabelecimento deve seguir rígidas normas de higiene, a começar pelas instalações: macas com protetores descartáveis, agulhas idem, todo material devidamente desinfetado com álcool, sem esquecer a boa ventilação do local. A esterilização da peça e dos instrumentos, por estufas ou autoclave, também é imprescindível.
Local aprovado, profissional confiável, chegou a tão esperada e dolorida hora: a do furo! Passando por essa etapa, ainda não é momento de relaxar nos cuidados. O pós-piercing é um processo que, se não for bem acompanhado, pode se complicar. "O tempo de cicatrização do piercing colocado no umbigo ou no supercílio é de mais de seis meses. Na língua, seis semanas; nos lábios, entre seis e oito semanas e na cartilagem da orelha, cerca de dez meses. Nesse período, a pessoa deve seguir um ritual de limpeza para não haver complicações", diz a body piercer Pérola Rodrigues, do Banzai Tattoo, no Rio de Janeiro. Outro cuidado importante é a localização do penduricalho. Ou seja, caso ela esteja num local que concorra com a sua indumentária, não pense duas vezes, fique com o bem-estar do adereço. "Atritos causados por roupas apertadas e movimentos excessivos podem causar quelóides, irritação na pele ou até mesmo rejeição", completa a body piercer Pérola.
Além destes problemas, os profissionais de saúde alertam para outro mal que o piercing pode acarretar: a hepatite C. A peça, como qualquer outro objeto perfurante, pode se tornar um meio transmissor do vírus causador da doença, que chega a levar até 20 anos para se manifestar. E tem mais, segundo dados da Organização Mundial de Saúde, estima-se que 3% da população mundial esteja contaminada com este vírus, que causa males como cirrose ou câncer de fígado. Portanto, certifique-se de que o seu piercing vai se limitar a cumprir o papel que você quis dar a ele.
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