Beleza

Abaixo à escova

por Marcella Brum | 28/04/2004

Num país mestiço, em que bem mais da metade das mulheres têm cabelos crespos, cacheados ou ondulados, a ditadura dos lisos parece coisa de bruxa. Tanto que algumas mulheres preferiram se assumir e deram o seu grito de independência: abaixo à escova!




Abaixo à escova

Da mesma forma que adora inventar moda, a mulher também ama mandá-la para as cucuias. Para essa relação mudar de faceta, do amor para o ódio, basta essa ditadura nada velada do estilo de andar, vestir ou pentear se tornar um fardo – logisticamente falando. Um bom exemplo disso é a bendita escova nossa de cada dia. Haja saco e vontade de ficar bonita para se submeter a ela. No entanto, por ter mais coisas na cabeça do que apenas cabelos ondulados, muitas mulheres deram seu grito de liberdade e declararam: abaixo à escova!

Num país tropical, abençoado por Deus, bonito por natureza e onde a maioria da população feminina tem cabelos ondulados, pode parecer coisa de alguma bruxa má essa história de colocar as mocinhas escravas da escova. Se alguém duvida dessa pervesidade, vamos aos dados: 18% das habitantes desta terra possuem cabelos cacheados, 22% têm cabelos crespos e cerca de 28%, cabelos ondulados. Apenas 32% das brasileiras nasceram com as madeixas verdadeiramente lisas! Ou seja, fazendo as contas, chegamos a impressionante marca de 68% que, portanto, não possuem cabelos lisos. É ou não é uma temeridade lançar esse tipo de modismo aqui por essas bandas?

A escova possui uma série de implicações, tais como aturar o calor emanado dos secadores, ver todo sacrifício ir por água abaixo – literalmente – com o suor, passar alguns dias de cabelo sujo até a próxima sessão e ter que desperdiçar, muitas vezes, um tempo valioso fazendo escova para passar por tudo isso. Então, na tentativa de otimizar a árdua tarefa de deixar as madeixas lisas, surgiram métodos mais duradouros como a chapinha, o alisamento japonês, a escova progressiva e por aí seguem também as controvérsias a respeito desses meios.
A universitária Elaine Carvalho era adepta da escova e pensava ter mudado sua vida com o advento da chapinha japonesa. "Sempre fui louca para ter cabelos lisos. Eu era aquela maluca que ficava em casa de touca, cheia de grampos na cabeça, que nem um para-raio. Não aparecia nem na janela, isso só para ficar com o cabelo bem lisinho para ir à aula. Depois passei a fazer escova com secador. Eu era obrigada a me arrumar com horas de antecedência e nunca saía de casa sem fazê-la. Então, assim que surgiu o alisamento japonês que, não pestanejei, fui uma das primeiras a fazer", diz ela, lembrando que, durante um tempinho, viveu uma verdadeira lua-de-mel com seus cabelos. "Era maravilhoso ir à praia, mergulhar e continuar de cabelos lisos. Esqueci somente que cabelo cresce. Quando isso começou a acontecer, foi um terror: era enrolado na raiz e liso, liso não, esticado nas pontas. Como penei com aquela situação, me revoltei e acabei cortando os cabelos curtinhos. Hoje, resolvi assumir os cabelos ondulados, cheguei à conclusão de que são mais bonitos do que os esticados na marra", assume Elaine.

Outra que assinou sua carta de alforria foi a economista Fátima Lins. "Eu fazia a escova no salão. Então, além de tempo, gastava dinheiro para, nos intervalos ter que andar como uma suja, com os cabelos amarrados e opacos. Fui ficando tão de saco cheio dessa lenga-lenga, que um belo dia apareci no trabalho com os cabelos ao natural. Como a aprovação foi geral, rompi com a dependência da escova, só faço agora de vez em quando para um evento. O único que não gostou, por motivos óbvios, foi meu cabeleireiro", brinca ela. Para a assessora comercial Janine Nabuco essa ditadura de estilos é, no mínimo, cruel. "As meninas, desde pequenas, são obrigadas a engolir heroínas louras e de cabelos lisos. Na minha época, a primeira providência, quando se ficava adolescente, era pintar os cabelos de louro. Hoje, elas fazem chapinha. Vejo isso pela minha filha de 15 anos, que prefere não sair a ter que ir de cabelo lavado sem escova. Temos que colocar na cabeça delas que ser diferente, quer dizer, ser você mesma é bacana. Você vai a uma festa ou boate e vê todas as mulheres iguais, parecem um exército, todas vestidas e penteadas do mesmo jeito. Isso definitivamente não é bonito", acredita Janine.

Então, para quem está farta dessa massificação capilar a que somos submetidas, o cabeleireiro Gilberto Moraes, do salão Ophicina do Cabelo, no Rio de Janeiro, ensina a ficar bonita sem perder o ondulado. "Estes cabelos são naturalmente mais secos, então devem ser lavados, no máximo, três vezes por semana com shampoos específicos para seu tipo. Depois da lavagem, deve-se passar um produto que alongue cachos, um leave-in ou silicone. Esses cuidados ajudam a domar o volume. Fazer uma hidratação semanal também é importante. Outra medida excelente é a cauterização dos fios, que trata, reduz o volume e ajuda a mantê-los assim por mais tempo", diz ele. No quesito corte, algumas regras também são fundamentais para um visual feliz. "Cabelos ondulados e crespos nunca devem ter franjas, para não parecer um poodle. As camadas também devem ser evitadas, o ideal é um corte feito em fios longos para dar peso aos cachos. Já os jeitosos, podem e devem usar camadas que conferem movimento", finaliza ele.


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