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Amor e Sexo

Vai passar...

Como as horas que correm lá fora, a dor da desilusão sempre passa

Por Rosana Caiado • 09/07/2008

Vvv, vvv.

Vvv, vvv.

Vibra o telefone no bolso de trás da minha calça jeans.

Atendo.

Do lado de lá, soluços.

- Estou te ligando pra você me dizer, mais uma vez, que vai passar.

- Vai passar, vai passar. Claro que vai!

No caminhar dos ponteiros do relógio da Central, depois de três ou quatro luas cheias, no dia seguinte em que aquele filme sair em DVD, quando o seu cabelo crescer dois dedos e nascer uma flor no pé de maracujá, vai passar.

Mas vai passar, eu garanto. Se não for por um golpe de sorte, será por esforço e merecimento. E, se tardar, por necessidade e instinto de sobrevivência, vai passar

Se contar com a companhia de amigos com quem você possa chorar ou dar risada (a escolher) passará mais rápido. Se confundir as taças com alguém do sexo oposto, passará ainda mais rápido, rápido, rápido. Se tiver sorvete de chocolate no congelador passará ligeiro. E se tomar com calda de caramelo passará como um raio.

Às sete da manhã, vai passar. Quando começar a fazer calor, vai passar. Depois que você chorar a última de tantas lágrimas, vai passar. Como um mantra, vai passar.

O bom de ter 30, e não a metade, é a certeza da sobrevivência pós-separação. Eu sei que agora está doendo e que é uma dor tão profunda que fica difícil acreditar que um dia ela não estará mais aí, apertando suas costelas e molhando seus travesseiros. Mas vai passar, eu garanto. Se não for por um golpe de sorte, será por esforço e merecimento. E, se tardar, por necessidade e instinto de sobrevivência, vai passar.

E toda essa tristeza vai dar lugar a um novo amor. E ele há de ser grande para preencher tanto espaço. E, acredite, você será feliz com ele. Muito feliz, insuportavelmente feliz. E vai maldizer os últimos dias com o outro, quando nem se lembrava da sensação de ter as bochechas mais coradas da festa.

Aí você vai pensar no dia de hoje como se ele pertencesse a uma vida passada, há muito tempo, lá longe. E essa lembrança virá com desdém e um pouco de mágoa. Talvez traga uma ponta de saudade - às vezes, muitas, os sentimentos não se casam. O importante - pode confiar - é que você estará tranqüila, sem o assombro nem os olhos tristes de agora.

Em nome da nossa amizade: vai passar, eu juro - beijo os dedos em xis.

Ela soluça alto do lado de lá.

- Se, por ora, estiver doendo em demasia, tome metade de um remedinho e vá para debaixo das cobertas.

Desligo.

Enfio o celular no bolso de trás da calça jeans. Fecho os olhos, recapitulo a minha fala (a parte do "merecimento" e do "instinto" até que foi boa) e me pergunto se fui mesmo convincente.

O que não falei e nem ousaria dizer é que nós também passamos.



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





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