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Amor e Sexo

O amor nos tempos de Lei Seca

Como a Lei Seca vai interferir no comportamento dos casais

Por Rosana Caiado • 11/08/2008

Pesquisa informal sobre os efeitos da Lei Seca nos relacionamentos amorosos revela números alarmantes. São eles: zero a zero.

Pior para os feios.

Como dizia a camiseta, era a cerveja que ajudava os menos agraciados a namorar gostoso desde 1800-e-lá-se-vão-muitos-beijos-na-boca.

Pior para os tímidos, que precisavam de uma dose de coragem para dar o primeiro passo, ainda que não fosse em linha reta, na direção da eleita.

Pior para os solitários, carentes e solteiros em geral: com a Lei Seca, quem beijou beijou; quem não beijou não namora mais.

O álcool na forma de cerveja, gim, whisky, vodka, tequila ou bombom de licor sempre foi o cupido mais eficiente na história das relações afetivas. Era o álcool que tornava o rapaz seguro de si, fazia com que ele se sentisse o tal, estufasse o peito, posasse de galã e acreditasse no amor à primeira vista.

É a morte da saideira - um capuccino na livraria e olhe lá. É o fim da carona pra casa, ah, aquela carona que dava a volta ao mundo só para você ser a última a sair do carro

Depois de quatro tulipas, um cowboy, duas tequilas e três rodopios de cabeça, o rapaz jurava que a mocinha mais bonita do baile estava dando bola pra ele.

Do lado de cá, era o álcool que tornava a moça, além de linda, também a mais feliz da festa. Alegre. Mais alta do que os saltos das suas sandálias podiam imaginar. No ponto. Depois de uma única caipirinha, sem açúcar, a moça relaxava os ombros, mostrava o pescoço, dançava como se estivesse pelada na frente do espelho e passava a achar o mundo mais interessante. O mundo inclui o rapaz do parágrafo anterior que, a essa altura, já aproximava seus lábios dos grandes brincos da moça, em um sussurro. O que falavam nessa hora não importa muito, mas sim os beijos de 0,7 grama de álcool por litro de saliva que trocariam em seguida.

Depois da Lei Seca, esse casal adorável dificilmente vai se formar. Olha lá: agora mesmo estão em lados opostos da pista de dança. Depois da Lei Seca, babau. É a morte da saideira - um capuccino na livraria e olhe lá. É o fim da carona pra casa, ah, aquela carona que dava a volta ao mundo só para você ser a última a sair do carro. Motel, só se for de táxi. Sexo: sem tapas, xingamentos ou qualquer sinal de descontrole. Até o primeiro "eu te amo" ficou comprometido pela Lei Seca.

A seco, é dose.

Em contrapartida, no que se refere aos casais já firmados, a pesquisa sobre os efeitos da Lei Seca é otimista e revela que, sem cachaça na veia, o número de brigas sem motivo, quebra-paus e desaforos da boca pra fora caiu cinqüenta por cento. A lei tem aprovação de noventa por cento da vizinhança, que afirma não mais ouvir bateções de porta ou soluços às três da manhã.

Depois da Lei Seca, o casal troca a garrafa de vinho tinto por uma coca-cola e lança mão de outras drogas ainda permitidas por lei como a língua na orelha e as unhas nas costas, a fim de perder a inibição e falar enrolado, em sensação de euforia. Melhor para os namorados.



Rosana Caiado nasceu no Rio de Janeiro, em novembro de 77. Desde então só quer ser amada. É devota do amor à primeira vista, do amor eterno e do amor após o matrimônio. Seu primeiro amor foi a publicidade, depois flertou com o jornalismo e veio a casar de véu e grinalda com a dramaturgia. Para fugir da rotina, faz aulas de jazz e dança de salão, inventa moda, joga charme e escreve no blog Pseudônimos.  Leia mais deste autor.





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