Passamos a vida inteira atrás do amor. Alguns dão a sorte de encontrá-lo, mas ainda mais difícil do que esbarrar com o cupido por aí é manter o sentimento vivo no coração. Fugaz, o amor virou passageiro, parando de ponto em ponto. Os namoros são instantâneos, os casamentos transitórios, e as uniões voláteis como o éter. Em tempos de gente que não tem tempo a perder, nunca se experimentou tão pouco o sentimento. Porém, alguns casais estão aí, firmes e fortes. Exemplos de como se viver uma paixão em um mundo tão complicado, eles ultrapassam os dilemas do dia-a-dia e preservam o que há de melhor na vida a dois.
São casais que vivem há quarenta, cinqüenta e até sessenta anos lado a lado. Mas, mesmo depois de tanto tempo, o amor não está livre de problemas. José Soares Correia que o diga. Aos 87 anos, este senhor natural de Portugal, atualmente vivendo em terras brasileiras, sabe que um relacionamento não é feito só de sonhos. "Vim ao Brasil para ficar perto de meus filhos. Todos nasceram em Portugal, onde eu e minha esposa tínhamos uma vida humilde. Mas, desde que o primeiro se mudou para cá, fomos vindo um a um", conta José, que comemora 63 anos de casado ao lado de Rosa - quatro anos mais nova que o marido. Quando perguntado sobre o segredo de tanto amor, seu José mostra que nem sempre é fácil. “Não temos uma lição, mas mil lições. Namoramos por seis anos, para só então nos casarmos. Passamos por muitas dificuldades no início da vida, e buscamos a estabilidade. Acredito que as dificuldades tenham nos unido. Aprendemos a superá-las juntos”, diz.
Para quem trocava juras de amor em 1942, assistir aos enlaces e desenlaces de hoje é um susto. “Apesar de minha experiência de vida, ainda me surpreendo com muitas coisas. Tudo mudou, principalmente a duração dos relacionamentos. Sou um saudosista. Aprecio o que a juventude tem de bom, mas há um desapego muito grande entre as pessoas”, avalia José. Avô de uma jovem de 26 anos, José reflete sobre a importância do casamento: “Se minha neta fosse se casar, eu lhe perguntaria se pensou bem na decisão. Se acha que poderão honrar um ao outro, dando continuidade à família. Valorize seu marido não apenas fisicamente, mas pelas qualidades que façam dele digno. Também é muito importante ser flexível no relacionamento. Eu e Rosa temos nossas complicações, só que continuamos sendo carinhosos um com o outro. Ainda hoje aprendemos na convivência”.
Com alguns anos a menos de experiência, mas compartilhando da sabedoria que só a idade proporciona, estão Alyrio e Tais Cavallieri. O casamento – que já dura 57 anos --, começou através de uma inocente troca de cartas. “Ao longo de oito anos, sem nos conhecermos, trocamos cartas. Eu, de Belo Horizonte, e Tais, do Rio de Janeiro”, recorda Alyrio, que conserva as cartas ainda hoje. E dá a dica para quem quiser seguir o mesmo caminho. “Quanto a fórmulas para um casamento duradouro, diferentemente da filosofia do Vinícius - eterno enquanto dure -, não há soluções matemáticas. Os termos da equação são seres humanos. Como diria Autran Dourado, o risco do bordado está mais em cima. Mas se alguém quiser, mesmo, por toda vida, esforce-se para nunca levantar a voz. Pode parecer uma solução simplista, mas conosco, há 57 anos, funciona”, sugere.
Sua esposa, Tais, avalia: “Antes de qualquer coisa, deve-se casar com muito amor. As pessoas estão firmando compromissos depressa demais. Acredito que uma espera, como um noivado, seja muito importante. Depois, muita compreensão e paciência para continuar junto. Na empolgação do namoro, os jovens deixam de ver os defeitos do parceiro. Mas defeitos todos têm, e é preciso saber tolerar”. Mesmo depois de tanto tempo de convivência, Tais não abre mão dos planos. “Estamos chegando às bodas de diamante. Ainda não sei se vamos fazer uma festa, ou uma viagem. Vai depender da nossa saúde, vamos esperar para ver”, explica.
Regina Racco não é médica, mas entende como ninguém os problemas do coração. Expert em relacionamentos e casos de amor, Regina dá palestras pelo Brasil, tentando ajudar pessoas desacreditadas no sentimento. “A vida hoje é muito mais complicada do que era há 50 anos. Diferentemente do que se pensa, a questão não está ligada só ao relacionamento, mas à saúde, à sexualidade e ao lado profissional. O planeta sofreu uma aceleração devido ao seu desenvolvimento. É claro que tudo o que alcançamos foi benéfico, no entanto, a aceleração da vida não é natural. Nosso corpo não consegue acompanhar o ritmo que nos impomos. Acabamos deixando algumas prioridades de lado, como nós mesmos e nossos pares”, analisa Regina.
Não adianta se lamentar por ter nascido em outra época. Os tempos são esses, e não podemos voltar atrás. Para Regina, a solução é aprender a lidar com as características de nossa era. “Precisamos pensar o que é realmente necessário para viver. Existe um grande movimento voltado para a desaceleração. Um ritmo muito intenso faz com que as pessoas não tenham paciência em resolver os problemas do dia-a-dia. Hoje, um cara vai para a balada, sabendo que vai terminar a noite no motel. Há pressa em tudo. Precisamos de qualidade de vida para viver bem. Perde-se saúde, amores e amigos na estrada da vida. Tudo pela falta de tempo”, lista Regina, já sugerindo uma solução. “É fundamental fazer auto-análise. Dedique alguns minutos para tomar um bom banho, caminhar na areia. Mas não é com ele, não. É sozinha mesmo. Só fazendo isso com você, que conseguirá ver o outro”, diz.
Como nenhum relacionamento é composto por uma só pessoa, Regina recomenda manter a leveza na vida a dois: “É importante estar sempre namorando. Bom humor também é fundamental. Os casais estão sérios demais. Isso não é vantagem nenhuma. Brincar ajuda a manter a jovialidade na relação. Mas se houver mágoa, não a deixe dentro de si. Além de não resolver, mais cedo ou mais tarde, acaba explodindo. Tente nunca levar o ressentimento para a cama. Sentiu que está magoada, fale. Esse é o mais saudável dos sexos orais”, brinca. No bom humor, tudo se resolve. Quem sabe assim, um dia, as bodas de ouro não chegam?
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