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Você faz as unhas, cabelo, maquiagem. Compra roupa nova, sandália, brinco, colar. Faz dieta, pula o almoço, só bebe Coca light. Sobremesa, só se for gelatina. Depila pernas, virilha, buço, axila. Passa hidratante, perfume, spray, silicone. Até que se olha no espelho e, maravilha, gosta do resultado. A pergunta é: pra quê isso tudo? Ou melhor: para quem? Afinal de contas, você se arruma para os homens admirarem ou para as suas amigas morrerem de inveja?
"Para os dois", diz a funcionária pública Gisela P., 31, defendendo que tudo tem sua hora. "Quando vou para uma boate, me visto de forma mais sensual, uso um decote, uma maquiagem mais forte - estou me arrumando para atrair os homens", descreve Gisela, que também se arruma para as amigas. "Se vou me encontrar com as minhas amigas, quero que elas me achem bonita. Só que a produção é outra: acho que fico mais menina, sem a preocupação de ser sexy", dispara.
Espelho, espelho meu...
Entre as amigas, é eterna a preocupação com os ponteiros da balança. Só que tem homem de cara feia diante da ditadura da magreza, como o usuário do Bolsa de Mulher Fersimi. "Essa moda foi inventada por quem não gosta de mulher. Nós, que apreciamos as fêmeas, obviamente não fomos consultados. As moças resolveram competir entre si para ver quem é a mais esquelética. E de quebra ganham o título de mais baranga", reclama ele.
Faz sentido: quando duas amigas se encontram, é comum rolar um comentário do tipo "nossa, como você emagreceu!" ou - essa é dose - "acho que você deu uma engordada!". Para Fersimi, esse culto à magreza é particular das mulheres. "Nós, homens, gostamos de mulheres fartas", garante.
Lili W., outra usuária do Bolsa, concorda com Fersimi: as mulheres competem mesmo. "Elas concorrem para ver quem está mais magrinha", garante, lembrando de outras ocasiões em que a competição feminina fica evidente. "Quando vão para uma festa, por exemplo, as mulheres se vestem para as que vão encontrar. Tudo isso para as colegas admirarem e comentarem sobre o vestido, o sapato, o cabelo. Isso, meu amigo, ninguém entende. Nem Freud explica", brinca Lili.
Unha descascada
De fato, dificilmente os homens reparam na produção de uma mulher. Eles podem até fazer um elogio ao visual, mas não se prendem aos detalhes (como aquele brinco maravilhoso que custou uma nota), muito menos imaginam o trabalho que dá ficar tão linda assim. Por exemplo, se a roupa está na última moda, só as amigas reparam. Em compensação, se a unha está descascada, eles também não percebem - ainda bem!
É o que diz F. Faria, engenheiro e usuário do Bolsa de Mulher. Para ele, 99% dos homens não reparam quando a mulher apara o cabelo, está com um vestido novo ou com a unha por fazer. "O homem é geneticamente generalista. Se ele vê uma mulher, ele vê uma mulher de calça jeans e pronto. Simplesmente vê o conjunto. Numa abstração, poderíamos dizer que ele vê a floresta, mas não presta atenção em árvore alguma", diz Faria, lembrando que isso tem a ver com milhares de anos de evolução, em que o homem era caçador e tinha que prestar atenção nos perigos. "Ele não precisava, nem devia ficar distraído e, sim, se concentrar em seus objetivos", diz.
É verdade que, em geral, a mulher é mais detalhista. "Ao ver outra mulher, ela nota o penteado, a cor das unhas, se a calça combina com a camisa, adereços e tudo o mais. Ao olhar para uma floresta, ela vê cada árvore", compara Faria, dizendo que, na evolução, a mulher tomava conta da prole, tinha de proteger a si e a outras crianças de animais, de modo que cada detalhe era importantíssimo.
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Segundo a psicóloga Sabrina Dotto Billo, se nos reportarmos à natureza, inicialmente os adornos usados pela "fêmea" tinham o intuito de conquistar seu "macho". "Mas não podemos esquecer que somos seres culturais capazes de transformar o natural. A cultura
sofre influências diversas e, na disputa pelo par, a competição ultrapassa essa fronteira de ‘se exibir para o macho' e marca uma concorrência anterior, entre as mulheres", afirma a psicóloga.
Sobre a mulher ser mais detalhista que o homem, Sabrina lembra que o comportamento é aprendido. "O fato de a mulher ser mais detalhista não se deve a qualquer diferencial de gênero e, sim, cultural. Nós, mulheres, ‘aprendemos' a ser mais detalhistas porque nossos modelos foram assim", explica ela, acrescentando que os homens estão ficando cada vez mais observadores.
Mulher x Mulher
As mulheres competem, sim. "Por vários fatores, desde uma exigência social e a influência mercadológica (da mídia), que são questões culturais, ao número crescente
de natalidade feminina em relação ao número de homens nascidos,
especialmente em algumas regiões do Brasil, que pode representar o medo,
ainda que inconsciente, da não perpetuação da espécie", afirma Sabrina Dotto Billo.
E a competição não existe só entre a mulherada: os homens se dizem muito camaradas, mas também disputam entre si. "A competição talvez mude o foco: competem nos postos de trabalho e com o modelo do carro. Seus corpos e adereços aos poucos tornam-se uma caricatura, pois os homens assumiram sua vaidade e cuidam de si como nunca", finaliza a psicóloga.
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