Amor

Casamento de fadas

por Bel Vieira | 01/05/2007

Como é despertar do sonho para resolver os problemas do cotidiano?




Casamento de fadas

Então, eles se casaram e viveram felizes para sempre! Conto de fadas sempre termina em casamento. Último capítulo de novela sempre tem um casório ou dois. Acontece que o casamento não é um fim: é só o começo - o começo de uma vida a dois e também o começo de uma pilha de contas pra pagar, o começo da rotina, o começo da pressão para se ter filhos... Será que é possível viver em uma eterna lua-de-mel ou chega uma hora em que a realidade se mostra bem diferente do sonho?

A primeira imagem que vem à cabeça quando se pensa em casamento é a noiva, linda, toda de branco, ao lado de um noivo com jeito de príncipe, com direito à nuvem de corações vermelhos. Mas passada a noite de núpcias, seja bem-vinda à vida real. Assim pensa a administradora, Fernanda P., 27 anos. "Sempre quis me casar. Mas, uma vez casada, me sinto uma caloura no primeiro dia de aula na faculdade: eu só queria passar no vestibular, mas depois é que fui ver como era o curso, os amigos, a profissão em si. No casamento é a mesma coisa! Tudo é novidade e ainda não sei como me posicionar", compara Fernanda, que mudou de profissão, mas tem fé que não vai trocar de marido.

“É importante observar que cada um foi criado por uma família diferente, com valores e hábitos que podem divergir muito. Além disso, para a maioria dos jovens casais, o casamento é a primeira experiência na qual duas pessoas estão, teoricamente, em condições iguais”


Idealizar o casamento, a festa, a cerimônia, o café da manhã com ares de comercial de margarina - quem nunca fez isso? "Eu pensava ‘ai, que maravilha, vou dormir de conchinha todos os dias'. É ruim, hein? Tem noite que a gente briga e dorme bunda com bunda, tem noite que a gente dorme em horários diferentes e também tem vezes que tá um calor danado e não quero ninguém me esquentando", revela Fernanda, ressentida com a rotina do casamento.


Treino é treino, jogo é jogo.

Por mais que os namoros da atualidade sejam bastante semelhantes ao que poderíamos chamar de minicasamento, depois de juntar as escovas de dente de verdade, a realidade é outra. "Quando a gente namorava, eu ficava direto na casa dele. Não me importava com a bagunça dele, com a geladeira vazia.. era tudo problema dele. Agora que a gente casou, não é assim: o espaço é nosso e passei a cobrar muito mais", assume a dentista Janaína C., 29 anos, casada há um, que morre de medo de se tornar uma verdadeira chata. "De namorada divertida e sexy, vou virar uma esposa megera? Ah, não", diz ela, que ainda não encontrou, mas está procurando um jeito de aparar as arestas do casamento sem perder o humor.

Nos contos de fada, não tem filho berrando de madrugada, goteira na cozinha e nem salário atrasado. Mas na novela da vida real tem, sim. E saber lidar com esses problemas ao lado do par é uma verdadeira arte, que a funcionária pública Marcele B. tira de letra. "Nunca achei que casamento era como nos contos de fada. Sabia onde estava me metendo e que não era fácil. Meu marido tinha filhos e uma maldita ex-mulher, então, minha vida não seria um mar-de-rosas", diz Marcele que, fruto de um casamento conturbado, soube detectar falhas que estragam uma relação.

Com 10 anos de casada, Marcele já superou muitas dificuldades ao lado do maridão e, com isso, a cumplicidade e o companheirismo só cresceram. "Ele me provou que vale a pena, é um marido maravilhoso, um profissional competente e um ser humano dos mais nobres que existem", se derrete ela, ciente de que é importante saber administrar os problemas e ir à luta.

Segundo a psicóloga Priscila Gaspar, os percalços mais comuns no início de um casamento vêm da dificuldade de adaptação. "É importante observar que cada um foi criado por uma família diferente, com valores e hábitos que podem divergir muito. Além disso, para a maioria dos jovens casais, o casamento é a primeira experiência na qual duas pessoas estão, teoricamente, em condições iguais. Enquanto moramos com nossos pais, eles exercem poder e autoridade sobre nós e também sobre a casa. No casamento, a casa toda passa a ser território dos dois e é uma tarefa difícil conseguir dividi-lo e compartilhá-lo igualmente", explica.

A psicóloga salienta que as expectativas muito altas sobre o casamento podem atrapalhar a relação. "Quanto maior a idealização, maiores tendem a ser as frustrações e decepções", alerta, lembrando que casar não significa compartilhar apenas a felicidade, mas também as dificuldades. "Um deve apoiar o outro sempre, sejam dificuldades individuais ou problemas que atingem a ambos", afirma, acrescentando que, na falta dos pais e do ambiente "seguro" da infância, muitos recém-casados acabem nutrindo raiva e ressentimento pelo companheiro, "culpando-o" por tudo que possa ser fonte de aborrecimento.

Que cozinhar, que nada! Já pode casar quem tem maturidade emocional para enfrentar as dificuldades e dar valor ao que realmente merece. "Ter planos e um projeto de vida em comum é fundamental para a manutenção do vínculo conjugal", finaliza.


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