Boca fechada

Dividir o entusiasmo de novas conquistas com alguém é irresistível. Mas saber manter a boquinha fechada em determinados momentos pode ser fundamental para escapar do olho grande e não entregar o ouro de bandeja.
por admin

A fama de que as mulheres falam pelos cotovelos e que não têm a menor cerimônia em transformar suas intimidades em um livro aberto – ou melhor, escancarado – corre solta por aí. Mas quem nunca ouviu o ditado "em boca fechada não entra mosca"? Pois é. Dividir o entusiasmo da descoberta das mil e uma qualidades do novo namorado ou compartilhar dúvidas e incertezas pode ser ótimo para aliviar as tensões do dia-a-dia, mas perder o limite pode ser perigoso. Além de se tornar uma vítima em potencial da inveja, quem solta, literalmente, a língua, corre sérios riscos de perder não só o namorado, como também a amiga. O pior é que, às vezes, nem fita crepe resolve.

A bióloga Solange Ferraz não faz a mínima questão de defender a classe. "Mulher é muito burra mesmo, sempre fala demais. Eu mesma, empolgada com a euforia de um caso novo, espalho tudo para minhas amigas... e olha que não tenho boas experiências. Mas não adianta, continuo faladeira. Será que existe alguma ligação cerebral de expectativa e emoção a distúrbio vocal?", questiona, às gargalhadas. A dúvida tem justificativa: "Na adolescência, perdi muito namoradinho por não saber medir minhas palavras. Mas o pior é que agora, burra velha, continuo caindo na asneira de falar demais”, conta ela, que dia desses passou por uma situação dessas com uma colega. “Saímos juntas e, assim que mostrei quem era meu alvo, ela disparou toda sua munição na direção dele também. Resultado: dancei!".

Mas falar demais nem sempre é ruim... pelo menos pra quem ouve. "Tive uma amiga na época de colégio que não parava de falar maravilhas do cara que ela ficava e que eu, particularmente, achava totalmente sem sal. Só que ela divulgava tanto o beijo dele, a pegada e coisa e tal, que eu comecei a ficar curiosa. Não preciso dizer que, na primeira oportunidade, tasquei um beijo na boca do menino", lembra a advogada Helena Dantas. Ninguém ficou sabendo, muito menos a inocente amiga, que vendia o peixe da sua conquista sem saber. E Helena, apesar de ter carregado a culpa por um bom tempo e ter percebido que, às vezes, ser "amiga ouvinte" desperta uma enorme tentação, assume que não tomou jeito. "Já me dei bem, mas também já fui vítima de uma história parecida. Perdi uma ótima chance de emprego por causa da minha boca grande. Ainda assim, quando me dou conta, já falei mais do que deveria. Me empolgo demais e acabo falando da minha vida até pra quem não conheço direito. Fila de banco é um prato cheio pra mim. É um horror! Fico arrasada depois!", confessa.

Essa necessidade de transformar a vida numa novela – com ótima audiência, diga-se de passagem – parece incontrolável, principalmente quando as coisas vão muito bem ou até muito mal. "Se não falo tenho a sensação de que posso explodir a qualquer momento", justifica a estudante Fernanda Coelho. "Por mais que eu tenha me policiado um milhão de vezes quanto ao que contar, sempre achei que devia ter ficado quieta. Se conselho fosse bom e eu me ouvisse, com certeza já teria colocado um esparadrapo na minha boca. Isso não quer dizer, necessariamente, que alguém tenha me sacaneado feio. Mas é que, quando as coisas dão errado, a gente acaba culpando o tal do olho gordo", conclui.

Até os homens, que não têm fama de abrir tanto o jogo, também cometem deslizes. Quando o negócio é contar vantagem, então, aí mesmo é que eles soltam o verbo. "Até uma certa idade, a gente acha que contar as aventuras sexuais aumenta a masculinidade", afirma o programador José Moura. Para ele, a situação só muda com a chegada da maturidade e de um relacionamento mais estável. Afinal, o peso da idade não traz somente conseqüências ruins. "Antigamente contava tudo, até mesmo coisas íntimas. Chegava para os meus amigos e dizia que a minha nova namorada era isso e aquilo outro, perfeita em todos os sentidos, boa de cama, etc e tal. Bom, você chega em uma mesa de bar, diz que sua mina é bonita, gostosa e que ainda faz de tudo na cama... já viu, né? Dá margem para todo mundo fantasiar o que quiser e eu não quero ninguém sonhando com a minha mulher. Hoje em dia, as pessoas são muito invejosas. Os meus amigos continuam falando, mas não digo mais nada", conta.

E o silêncio pode ter ótimos resultados. "Eu era afim de uma mulher que gostava de um colega meu. O problema é que ela estava toda apaixonada por ele, queria namorar, coisa e tal, enquanto ele achava isso um perfeito passaporte para a cama e só via nela mais um belo par de pernas. Eu ouvia ele falar e ficava doido de raiva. Calado, percebi que poderia conquistá-la exatamente onde ele estava falhando. Ou seja, dando carinho, atenção, valor... e não só sexo", revela o designer Gabriel Lemos. Com a boca fechada e os ouvidos bem abertos, ele deixou que seu próprio rival indicasse o caminho das pedras. "Com o tempo, ela acabou percebendo as más intenções dele e me deu uma chance, que rendeu um namoro de um ano e pouco. Hoje em dia, ele não fala mais comigo e essa história ficou como uma experiência pra mim. Se não tivesse me dito tudo aquilo, ele provavelmente teria conseguido o que queria", conclui.

Nem sempre é preciso apelar para a fita crepe, o fecho éclair, ou para uma potente superbonder para não se dar mal. Muitas vezes, dizer as coisas certas é mais do que suficiente. "Namorava um dos caras mais bonitos da agência e sabia que quase todas as mulheres estavam de olho nele. Então, comecei a falar barbaridades sobre o pobre coitado para as minhas supostas "amiguinhas": dizia que ele era esquisito, que tinha umas manias estranhas e não dormia fora de casa por causa da mãe. Cheguei até a comentar que desconfiava de que ele fosse bissexual. Foi muito engraçado porque rapidinho apaguei o fogo de todas elas, que começaram a virar a cara pra ele!", diverte-se a modelo Adriana Mendes. Mas, no fim das contas, romper o lacre foi irresistível. "Quando a gente terminou, eu contei para as que eu achava mais confiáveis que tudo não passava de uma estratégia. É lógico que, em menos de uma semana, ele ficou sabendo de tudo", lembra. Confiáveis? Nem as paredes...

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