Amor proibido

O que fazer quando o objeto do desejo é impossível de ser possuído?
por admin

Os que se dizem especialistas no assunto afirmam que o amor só frutifica se adubado com medidas doses de mistério. Pode ser, tem mesmo o seu fundamento. Mas, e quando o segredo é a característica principal de um relacionamento? Vontades e sentimentos proibidos de amores mantidos em sigilo levam alguns casais a uma aventura repleta de frios na barriga, paixão enlouquecedora, mas também muita tensão e insegurança.

A advogada paulistana Flávia*, 33 anos, levava uma pacata vida de solteira até que um burburinho de ordens sentimentais tomou conta da sua família. "Minha irmã estava noiva e o noivo rompeu tudo. O casamento estava praticamente marcado, tudo começando a se organizar e, de repente, ele sumiu, desapareceu. Ela ficou louca de raiva, deprimida, todo mundo da família achando aquilo o fim. Só que uns dois meses dessa história, ele me reaparece dizendo que estava apaixonado por mim, que começou a gostar de mim, que terminou com ela por isso", conta. Apesar da fortíssima campanha de desmoralização que a família e a irmã promoviam com relação ao rapaz, Flávia acabou não resistindo. "Eu acabei me envolvendo, mas ninguém podia sonhar com aquilo", revela.

Ou você abre mão dos seus amigos, do convívio com a sua família e com o mundo pra ficar com aquela pessoa, ou então você não consegue levar adiante

Para a advogada, o fato de se tratar de uma relação proibida tornou o envolvimento mais arrebatador. Eram encontros escondidos e, às vezes, muito rápidos, que levavam o casal à loucura. "A gente só se via em lugares muito distantes da minha casa e de onde freqüentavam os nossos amigos em comum. E eu ficava meio paranóica: a gente só se encontrava no cinema já com a luz apagada, do motel, saíamos separados, aquelas coisas. Mas era tudo muito quente, desesperado até. Não tem jeito, tudo o que é proibido acaba sendo mais gostoso", considera Flávia, que optou por terminar a aventura oito meses depois. "Até hoje, ninguém sabe de nada. Terminamos porque a insegurança tinha ficado demais. Você passa a necessitar da pessoa na sua vida e sabe que não pode contar com ela. Não dá para sustentar um amor proibido porque dificilmente ele vira amor de verdade", sentencia.



A universitária Juliana*, 29 anos, concorda com a máxima. Ela também tem experiência no ramo: namorou um ex-professor, casado, com dois filhos e 17 anos mais velho. "Ou você abre mão dos seus amigos, do convívio com a sua família e com o mundo pra ficar com aquela pessoa, ou então você não consegue levar adiante", diz ela, que, apesar das agruras, faz uma análise positiva de sua história, um ano e meio depois de terminada. "Tirando todos os problemas, inclusive a angústia de ser a outra, de conhecer por alto a mulher dele e ter de viver uma relação clandestina, foi muito legal porque ele era uma pessoa incrível. Nunca tinha ficado com homens mais velhos e descobri que adoro. Se ele largasse tudo para ficar comigo, ainda hoje, eu ia. Só que eu não tenho essa ilusão e, pra não alimentar mais isso, terminamos. É desgastante demais, não vale a pena", reitera Juliana, que está, no momento, às voltas de uma nova chance com outro ex-namorado, este desimpedido e, segundo ela, apaixonadíssimo.

Mas é na adolescência que relações proibidas são mais reincidentes: pais que proíbem namoros, paixões pelo melhor amigo do irmão, pelo namorado da amiga. Quem não viveu algo assim ao menos conhece alguma história como a da estudante Camila*, 18 anos, que viveu, aos 16 anos, uma história de encontros e desencontros com um homem que tem o dobro da sua idade. "Ele era DJ de uma festa que eu freqüentava. Um dia, começamos a ficar, ele vinha me pegar de carro em casa para sair e meus pais começaram a não gostar. Acabaram sabendo quem ele é, porque ele é conhecido no meio, e proibiram. Antes de me conhecer, ele já tinha se envolvido com drogas, tem uma profissão que não é muito bem vista e ainda tem uma aparência pouco convencional. Além de ser 15 anos mais velho. Quer dizer, não é o príncipe que meus pais sonharam pra mim", considera Camila, que fez questão de não dar ouvidos à proibição. Ela e seu DJ ainda se encontram às escondidas, mas manter uma relação constante é um grande desafio. "Sofro muito porque sou apaixonada por ele. Mas ele tem um ritmo de vida muito diferente do meu e eu entendo perfeitamente que nenhum homem feito como ele vai topar um lance com uma garotinha que tem os pais voando em volta", lamenta-se.



Que romântico!

Amores proibidos são um tremendo filão dos romances e da dramaturgia. Um deles, o mais famoso, virou até sinônimo para esses casos: Romeu e Julieta. "São inúmeros os escritores que relataram sobre jovens amantes impedidos por forças externas a viverem suas paixões. Mas sem dúvida é essa primeira grande tragédia de William Shakespeare, sobre a rivalidade das famílias Montecchio, de Verona, e Capuleto, de Cremona, a que melhor nos faz refletir sobre o assunto", comenta Fábio Durac, professor de história e teoria do teatro, da Uni-Rio. Para ele, o dramaturgo inglês construiu dois personagens baseados na essência do que podiam representar de mais sublime, o amor. "O encontro de Romeu e Julieta nos mostra o quanto todos nós estamos sujeitos a nos transformar em personagens pela influência do que os outros pensam ou deixam de pensar a respeito de nós. Quando assumem e vivem o que sentiam, os dois estão se entregando às próprias vidas. E infelizmente, até hoje, quantos de nós deixamos de viver nossas próprias vidas em razão de julgamentos alheios?", questiona o professor.

A psicóloga Tereza Bregman faz questão de ressaltar que cada caso é um caso, mas arrisca afirmar que, sendo o amor movido por carências físicas, materiais e emocionais, o que leva uma pessoa a se envolver em um caso proibido é a necessidade de um desafio. "Talvez pelo desejo de viver uma grande aventura ou talvez por uma noção de que aquilo que é mais difícil de ser conquistado terá mais solidez quando for construído", diz ela. No entanto, o dilema central de quase todo caso de paixão secreta está mesmo entre a razão e a emoção. "O afã de viver tudo intensamente deve ser analisado com muita calma e discernimento, o que nessas horas é mesmo difícil, mas é o mais importante de tudo. É preciso fazer uma análise funcional cautelosa da própria vida e notar a importância dos seus contextos com relação aos sentimentos. Não que eles não sejam importantes, mas é sinal de amadurecimento não permitir que as emoções tomem conta das nossas ações, a ponto de produzir situações adversas", conclui Tereza.


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