comentários (44)Já Cristina Mathias, designer, não teve a mesma sorte do final feliz. "Meu primeiro relacionamento foi perfeito, o melhor da minha vida, mas não deu certo por causa do preconceito de idade. Eu tinha 17 e ele, 32", conta. O preconceito não era dos pais nem dos amigos, mas do próprio namorado. "Ele era uma pessoa muito vaidosa, pensava na aparência, no desempenho, se ia me satisfazer, se eu não teria curiosidade de experimentar relações sexuais com outros homens, já que ele foi o meu primeiro. Também não conseguia imaginar como seria a questão do casamento, dos filhos e não acreditava que eu, quando estivesse no auge dos 30, ainda me interessaria por um homem beirando os 50", explica.
Para piorar, a sogra parecia não apoiar o relacionamento do filho com uma adolescente, apesar de Cristina ter sido sempre muito madura. "A mãe torcia pela ex e colocava muita pressão contra a nossa relação. Ele cedeu", lamenta.
Enquanto o relacionamento de Cristina com o homem 15 anos mais velho não vingou, o da jornalista Alice* nem começou. O motivo? Mais uma vez, o preconceito. "Conheci um homem lindo em uma boate. De repente, ele foi se aproximando e começou a dançar comigo. Muitas músicas depois, começamos a conversar. Nome, o que fazíamos, idade... Foi aí que ele mentiu", revela. "Depois que eu contei que tinha 20 anos, ele me pediu para adivinhar a idade dele. Chutei 28, mas ele me corrigiu, dizendo que tinha 25". E assim a noite foi passando, passando, mas nada rolou. Antes de ir embora, Alice tomou a iniciativa de pedir o telefone dele e, dias depois, mandou uma mensagem. Começaram a se falar com freqüência.
"Numa das ligações, ele confessou que queria muito sair comigo, mas que eu era muito nova para um cara que já ia fazer 33 anos. E brincava dizendo que iria ser preso se a gente se envolvesse", diverte-se a jornalista. Não se dando por vencida, Alice rebateu, dizendo que o rapaz estava se preocupando com um detalhe muito leviano. "Dei até o exemplo do meu pai e da mulher dele, quase 25 anos mais nova", conta. "Mas não adiantou, nada o convenceu. Ele não quis nem arriscar comigo. Assim, deixamos de viver algo que poderia ter sido muito legal se ao menos tivéssemos tentado. Bom, acho que eu, pelo menos, fiz a minha parte", garante Alice.
Um casal, duas culturas
Ana Maria* é professora casada com um americano, mora nos Estados Unidos há três anos e também sofre na pele o preconceito - de ser brasileira. "As pessoas costumam fazer piadas de extremo mau gosto e comentários muito maldosos. Ainda tem muito aquela coisa de 'ela se casou com ele só para ganhar o visto e ainda ficou grávida para segurar o marido'. Meu filho é pequeno, mas sei que ele sente que nem sempre somos bem-vindos, que pertencemos a 'outro mundo'", indigna-se.
A professora conta que as duas famílias não foram muito a favor do casamento, mas que, apesar das dificuldades, ela não se arrepende. "Meu marido e eu somos felizes, só temos alguns atritos na hora de educar o nosso filho - dentro de casa, pelo menos, eu defendo a criação à moda brasileira", diverte-se ela.
Segundo Anna Paula Uziel, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), o desejo, a paixão e o amor são livres, mas o preconceito é a amarra. A psicóloga Olga Tessari completa: "No fundo, o problema está na diferença". Ela ressalta que, se o casal souber administrá-la, evitando conflitos, mágoas e mal entendidos futuros, é totalmente possível ter um relacionamento "ad infinitum" (ou para sempre).
Para driblar as críticas daqueles que têm preconceitos, não permitindo que elas interfiram no equilíbrio do casal, é importante desconstruir e renegociar os pré-julgamentos através do diálogo. Para isso, é preciso ter paciência. "Se, ainda assim, não der certo, vale a pena ousar e lutar. Um confronto direto pode chocar no sentido de gerar mudança", aconselha Anna Paula Uziel. Se o amor vence no final? Comemore, porque a resposta é sim! Desde que o casal se aceite e desde que saiba lidar de forma positiva com as pressões sociais e familiares, exigindo respeito de todos.
* Os nomes foram alterados a pedido dos entrevistados
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