Amor de primo

Polêmico e rodeado de mitos, mas uma tentação para muitos...
por admin

Amor à primeira vista, amor de infância, de verão... Todo mundo sempre tem uma boa história para contar, ainda mais quando o namorado ou marido felizardo é alguém da própria família... o primo! Com um misto de excitação, incerteza, drama, proibição e muito tabu, o romance entre primos pode ser, muito mais do que um affair passageiro, amor para a vida toda - aqui mesmo, na vida real, e não só nos filmes e novelas!

Logo o primo?

Na verdade, por muito tempo foi mais do que natural o casamento entre primos. Na Idade Média, nobres e reis preferiam os matrimônios consangüíneos porque assim não teriam que dividir suas riquezas e heranças com outras famílias. Por outro lado, algumas culturas sempre consideraram o casamento entre primos como um modo de assegurar a manutenção dos laços de família.

Em grande parte, o amor entre primos é muito mais romântico quando visto pelo lado da mulher. O homem é mais carnal e geralmente ele se sente apenas seduzido pela prima. É ela que acaba conduzindo o andar da carruagem, da relação

"Na Grécia, meus pais têm dois casais de primos em segundo grau que se casaram entre si. Não houve problema algum, eles já devem ter mais de 40 anos de casados. Entre os gregos, o casamento entre primos mais distantes não é repudiado, não há preconceito em relação a isso. E eu acredito que, quando existe amor verdadeiro, tudo é possível", conta Stela Tsirakis, jornalista. "Acho que meu pai se incomodaria se eu namorasse um primo de primeiro grau, já que, nesse caso, a relação de parentesco é mais próxima", conta Stela.

Omar Saifi, de ascendência libanesa, conta que não é regra, mas costume, se casar com primos. "Na nossa cidade lá no Líbano, que é bem pequena, quase todos são primos uns dos outros. Para começar, meu pai e minha mãe são e eu conheci a minha esposa, que é minha prima, lá no Líbano. Apesar de ela ser brasileira, foi educada dentro da nossa cultura, portanto nunca tivemos problemas com isso e, hoje, depois de 10 anos de casados, ainda vivemos uma lua-de-mel", diz Omar. No entanto, na cultura ocidental cristã, essa união não é bem vista - seja qual for o grau de parentesco - e precisa até da autorização de um bispo para ser concretizada perante a Igreja.

De acordo com psicólogos, o fato é que quando um sentimento começa a nascer dentro de nós, ele não escolhe hora, lugar e muito menos a pessoa. Pois é, o cupido não é tão certeiro assim e pode acabar flechando alguém da família. De acordo com o psicólogo e psicoterapeuta sexual Oswaldo Rodrigues Jr., diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, os primos são parentes fora do núcleo familiar próximo e, por isso, muitas vezes acabam não sendo percebidos como família imediata.

Intimidade é tudo

"O primo é, sim, próximo, no entanto, não é sentido como tal na família, passando à prima a impressão de que está plenamente disponível para um relacionamento amoroso, inclusive sexual. E vice-versa", explica Oswaldo. Para a psicóloga Adriana Falcão, o primo às vezes é como um amigo ou vizinho que pode muito bem ser visto pela mulher, pela prima, como um homem atraente. "A própria família acaba diferenciando esse olhar que a mulher tem sobre o primo e que ele tem sobre a prima", acrescenta Adriana. Ela explica que, em família, é normal primos e primas serem elogiados, o que faz com que criem respeito e admiração um pelo outro, ainda mais se foram criados próximos desde cedo.

Aí pronto: férias no sítio da tia, Natal na casa da avó, festinhas de fim de ano... Um prato cheio para a intimidade. "Dormindo sob o mesmo teto, tudo se torna mais fácil... e até aí sem interdições, sem preocupações dos pais. Afinal, são primos", diz Oswaldo Rodrigues. "Acho que alguém próximo a gente já conhece bem, então fica mais fácil se aproximar ainda mais", opina Omar Saifi.

Foi assim com Débora Paiva*, professora, que já viveu um amor de primo na adolescência e, por coincidência ou não, é filha de primos em primeiro grau. "Sempre achei meu primo bonito e amigo, desde criança. Até que num réveillon fomos todos viajar - meus pais, avós, tios... Na noite da virada, meus primos e eu fomos para uma outra praia. Bebemos, rimos e, na volta para o hotel, esse meu primo pegou minha mão. Na hora não entendi, mas permiti", lembra Débora. "E foi na escada do hotel que rolou o primeiro beijo", conta.

Dramas e alegrias

Com um quê de proibido, o romance entre parentes é mesmo digno de Romeu e Julieta. "Tudo que é proibido é mais gostoso, não é mesmo?", indaga a psicóloga Adriana Falcão. Para a professora Débora Paiva, a princípio sim, mas ela conta que precisou enfrentar muitos dilemas com a consciência durante os dois anos em que se relacionou com o primo sem que os pais soubessem. "Várias vezes tentei me enganar, fingindo que aquele sentimento por ele não existia. Eu não conseguia entender como podia gostar do meu primo, com quem brinquei e briguei tantas vezes", desabafa Débora. Ela confessa que, quando eles transaram pela primeira vez, houve um sentimento de culpa muito grande.

"E ainda tinha meus pais, que já são primos em primeiro grau. Eu sabia que a família jamais aceitaria um romance desses pela segunda vez. Quem sabia do namoro dizia que não ia dar certo. Fui muito julgada, tudo ia contra, até mesmo a minha própria consciência", afirma Débora. Até que um belo dia o primo da professora apareceu com uma namorada. Hoje, Débora - que também namora - e o primo são apenas amigos.

Com Anne Lise Gonçalvez foi diferente. A dona de casa foi parar no altar. Ela se casou com o primo após uma longa espera que, segundo ela, foi coisa do destino. "Eu e ele nos conhecemos desde sempre, morávamos no mesmo bairro, até que ele foi passar quatro meses fora do Brasil", conta Anne Lise, que nem conseguiu ir na despedida do primo de tão balançada que estava. "Mas, quando ele voltou, não nos desgrudamos mais e percebi que algo havia mudado". Logo começaram a namorar e, para a surpresa do primo, Anne Lise era virgem. "Ele ficou surpreso, porque sempre fui muito namoradeira e bem maluquinha", diz Anne Lise, que teve a primeira relação sexual com o primo. "Em 2000, nos casamos", lembra a moça, feliz.

Embarreirados

Enquanto para algumas é fácil lidar com o amor de primo, outras precisam enfrentar muitas barreiras. O primeiro obstáculo, e também o principal, é mesmo a família. "É preciso ir com calma e na base de muita conversa. É assim em todo relacionamento humano. Se a família for contra, descubra o porquê dessa postura e aja em cima disso", aconselha a psicóloga Adriana Falcão, que emenda um segundo conselho: "Se a família for contra simplesmente por serem parentes, mostre que, justamente porque vocês são muito próximos e se conhecem muito bem, pode dar certo".

No início pode parecer difícil tia virar sogra e sobrinha virar nora, mas, segundo a psicóloga, a família vai aprendendo a se posicionar de acordo com a situação. "É preciso, é claro, tempo e paciência", ressalta Adriana Falcão. Afinal, "quando a gente casa, seja com parente ou não, nos casamos com a família inteira!", brinca Omar Saifi. "E isso é fundamental para evitar futuras dores de cabeça", acredita Omar.

Não se esqueça, também, de manter os pés no chão. De acordo com o psicólogo Oswaldo Rodrigues, não é porque vocês são primos que vai dar certo. "A intimidade, fortalecida por serem parentes, produz a sensação de que o namoro tem mais emoções e a aparência de ser mais intenso", esclarece Oswaldo. Adriana Falcão completa: "Em grande parte, o amor entre primos é muito mais romântico quando visto pelo lado da mulher. O homem é mais carnal e geralmente ele se sente apenas seduzido pela prima. É ela que acaba conduzindo o andar da carruagem, da relação".

O que a ciência diz

Se não é a família que não arreda pé por achar que primos foram feitos para serem apenas parentes e, no máximo, amigos, por outro lado o empecilho para a relação pode ser a ciência. "Quando minha mãe descobriu, mais tarde, que eu estava tendo um relacionamento com o meu primo, ela fez questão de deixar claro que essa história não poderia ficar mais séria. O medo maior era se algum dia chegássemos a ter filhos", conta a professora Débora Paiva.

O risco de doenças e má formação genética sempre foi um entrave para a união entre primos. Mas, afinal, os riscos são mesmo maiores? A resposta é sim. De acordo com o geneticista Walter Pinto Júnior, um casal não consangüíneo enfrenta o risco de 1,5% a 2% de ter um filho com má formação ou algum tipo de doença metabólica ou fisiológica, como a surdez. Mas o risco sobe para 10% quando o casal é de primos em primeiro grau. "Quanto mais próximos na escala de parentesco, maior o risco. Se forem primos em segundo grau, o risco cai, se forem de terceiro grau, cai mais ainda e assim por diante", explica o geneticista.

"Não se pode dizer, porém, que a ciência é um empecilho para a união entre primos", afirma Walter Pinto. O geneticista conta que o casamento entre primos já foi, inclusive, um recurso seletivo da natureza. "Nasceram - e nascem - crianças imperfeitas, mas os genes melhores foram - e vão - sobrevivendo. Tomemos Einstein como exemplo: ele foi fruto de várias gerações de casamentos consangüíneos e os seus irmãos também eram perfeitos", revela o geneticista. Ele afirma que para quem quer ter filhos com o primo, o importante é fazer um acompanhamento genético minucioso assim que a decisão for tomada, além de seguir algumas recomendações.

A dona de casa Anne Lise Gonçalvez é um exemplo vivo de superação: ela descobriu, em março do ano passado, que estava grávida do marido, o primo, mas acabou perdendo o bebê. "Não deixamos a peteca cair e em dezembro do mesmo ano eu já estava grávida novamente. Faltam mais ou menos uns 20 dias para o nosso bebê chegar, estou numa gravidez 100% segura", alegra-se Anne Lise.

Final feliz?

De fato, amor de primo pode envolver algumas barreiras nem sempre comuns a todos os casais, mas é mito dizer que a relação entre primos tem mais chances de dar certo do que uma relação entre pessoas que não são parentes. "O que configura a relação é o próprio casal. Ele é quem decide se vai lutar ou não pelo relacionamento, porque não adianta travar uma luta de uma só pessoa. Os dois têm que entrar de cabeça na história que estão construindo, assim como deve ser em qualquer relação", afirma Adriana Falcão.

Segundo Oswaldo Rodrigues, o importante é saber lidar com a frustração, porque não é o ‘sim' da família que irá garantir o final feliz dos contos de fada. Ele conta que namoro ou casamento entre primos tem tantos problemas quanto com estranhos, mesmo que a princípio se possa dizer que ‘existe muita coisa em comum'. "Preferências semelhantes e gostos iguais podem facilitar alguns relacionamentos, mas de maneira alguma são, por si só, a base de um relacionamento duradouro e certeiro", alerta o psicólogo.

Se não der certo, com certeza muita coisa boa fica. "Tenho uma admiração absurda pelo meu primo, sinto muito carinho por ele e tenho certeza de que ele foi um exemplo para mim. Hoje, namoro um homem muito parecido com ele, tanto fisicamente quanto no que diz respeito à personalidade", afirma Débora Paiva.

E se der certo, mais uma prova de que, apesar de nem sempre percebido como natural, amor de primo é, de qualquer forma, amor. E viva o nobre sentimento! Porque o importante, no final das contas, é ser feliz.

* o nome foi trocado a pedido da entrevistada

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