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Um lugar para desabafar, trocar experiências, falar sobre histórias de vida, ajudar. Talvez você nem faça ideia, mas tudo isso acontece aqui, no mundo virtual da internet, onde casos bem reais se encontram e servem de apoio e incentivo para quem navega em busca de informação e de uma luz no fim do túnel. Experiências que poderiam se limitar à dor se tornam enriquecedoras e motivo de ajuda ao próximo.
São blogs que trazem relatos de pessoas que passaram por doenças e estão sobrevivendo dia após dia. Essa luta diária se transforma em um post de esperança para tantas outros que passam por situações parecidas.Foi assim com a produtora de cinema Clélia Bessa, de 46 anos. No meio do ano passado, ela descobriu que tinha um câncer no seio esquerdo. No início, Clélia se desesperou. Mas decidiu pegar esse limão "e fazer uma caipirinha", como ela mesma gosta de falar.
No mês seguinte, já conciliava a vida pessoal, o trabalho e os cuidados com a filha Elisa com as longas sessões de quimioterapia e a nova criação, o blog superalto astral Estou com câncer, e daí?. "Eu fui à luta quando descobri que a literatura que tinha sobre a doença era muito fria e distante. Não encontrava conforto, nem achava a minha turma. Não tinha quase informação de "mulherzinha", como o melhor sutiã ou o que fazer quando a gente está perdendo o cabelo, por exemplo", cita.
Clélia sabe que lidar com a doença não é fácil. Mas reconhece que, com o site, está conseguindo dar uma leveza à situação e tirar o câncer do armário. "Sei que fiz uma diferença na vida de muitas mulheres. Foi incrível o retorno que tive com o site. Sempre me emociono com os depoimentos que deixam nele. Descobri que o segredo da superação é se amar e tento passar isso através do blog" conta ela, que fez quimio até novembro passado e agora vai de três em três meses ao médico fazer a revisão. O lance é botar para fora Para a psicóloga Mariana Taliba Chalfon, dividir experiências com outras pessoas pode ser superpositivo para quem está passando por processos delicados na vida. "Para quem escreve, funciona como catarse. À medida que as angústias e os conflitos são colocados para fora, seja por meio de palavras, figuras ou esculturas, a pessoa entra em contato com seu sofrimento de maneira mais distanciada. As formas de expressão alternativas dão um novo significado aos problemas e possibilitam refletir a respeito da doença", comenta a psicóloga.
Outro que foi à luta e botou para fora sua relação com um câncer foi o consultor de empresas Edmour Saiani, 54 de anos. No dia 2 de março deste ano, Ed descobriu uma "coisa" estranha no seu corpo depois de um raio x. Era um linfoma não hodgkin que mudou sua vida. "Primeiro, vem o susto: você tem câncer! No início, a gente fica torcendo para que seja benigno. Depois, que tenha cura. Por fim, que a quimio não gere tanto incômodo", lembra Ed, que perdeu cabelo, mas jamais o bom humor e a esperança. Ed pegou toda a bagagem adquirida com a doença e botou no ar em 1º de abril o blog Cura do Ed. "Queria compartilhar o que eu estava sentindo e mostrar para as pessoas que a experiência de ter um câncer não é necessariamente desesperadora. Há luz no fim de vários túneis que vagam por essa doença tão temida e desconhecida. Achei que tentar explicar um pouco, pelo menos para quem estivesse perto de mim, seria útil", opina Ed, afirmando que o maior orgulho foi o ânimo de criar e manter o blog em um estágio em que muitas pessoas desanimam.
Foi o mesmo que pensou Cláudio Santos de Souza, de 45 anos. Em 1993, ele descobriu que era soropositivo. Depois de ver sua vida virar de cabeça para baixo, ele conseguiu dar a volta por cima. Sete anos depois, estava criado o site Soropositivo. "Depois do HIV eu tive outras doenças, mas parece que Deus faz questão que eu permaneça vivo. Pensei: isso deve ter um propósito. Hoje sei que esse propósito é o trabalho que faço", conta. O site, que está próximo de alcançar 90 mil visitas por mês, é o seu maior orgulho. "É impossível imaginar quantas pessoas o site beneficiou", coloca Cláudio. Para ele, um dos combustíveis que dão mais força são os depoimentos que recebe dos visitantes. "Cada um deles é uma lição de vida que ajuda outras pessoas a superarem suas dificuldades", avalia.
Convivendo com a doença
Os que contraem a doença não são os únicos que usam a internet para compartilhar suas experiências de vida. Quem convive bem de perto com ela também encontra na web uma grande aliada para extravasar as emoções. É o caso do analista de sistemas Rodrigo Freitas, de 31 anos. Há quatro anos, ele descobriu que a mãe sofria com o mal de Alzheimer, que até então era apenas um palavrão para ele.
Em abril do ano passado, Rodrigo decidiu criar um local para contar sua história. "Me perguntei o que faria com tanto conhecimento quando minha mãe não estivesse mais aqui. Foi então que resolvi escrever o blog Quando pais viram filhos e começar a disseminar tudo o que eu tinha aprendido nos anos anteriores", explica. O filho de dona Aparecida confessa que tem o maior orgulho de ver que o trabalho que tem feito está realmente ajudando os outros. "Recebo e-mails e comentários de pessoas agradecendo por compartilhar minha história. Outras completamente desesperadas por conhecimento. Quando recebo uma mensagem dizendo que o blog ajudou, vejo que não tenho escrito à toa todo esse tempo", reconhece.
Na opinião da psicóloga Mariana Taliba, além de dividir as experiências pela internet, é importante compartilhar as angústias na vida real, com pessoas com as quais existem vínculos afetivos ou que passaram por um processo semelhante. "Sem dúvida, o mundo virtual possibilita inúmeros contatos e reflexões. Partilhar experiências online pode ser uma boa alternativa, se ele for tão profundo quanto a relação ao vivo. O que se deve ter em mente é que o contato superficial pouco apazigua as angústias. O encontro entre duas pessoas que, além de dividir, são tomadas pela compaixão é o que é confortante. Não importa se é presencial ou configurado no meio virtual", conclui a psicóloga.
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